“Palavras mal ditas são balas perdidas que atingem quem as ouve sem nenhuma proteção.”
(Site Caneta perdida)
Em vários momentos os profissionais de saúde se deparam com a difícil tarefa de transmitir notícias desagradáveis para os pacientes e as pessoas que os amam. A ansiedade e angústia frente as incertezas de como os familiares vão receber as informações, a possibilidade de expectativas desalinhadas do paciente, o despreparo para lidar com as emoções do outro e a falta de treinamento adequado estão entre os principais dificultadores para uma boa comunicação.
Mas afinal o que é uma má notícia?
É qualquer informação que afete adversa e seriamente a visão de um indivíduo sobre seu futuro, levando a quebra de expectativas.
A comunicação adequada requer atenção a linguagem verbal e não verbal, validação de emoções e acolhimento do paciente e de seus familiares. Além disto deve-se convidar os ouvintes a fazer parte do processo de tomada de decisão e lidar com o sofrimento gerada pela expectativa de cura. Para facilitar todo este processo várias ferramentas têm sido descritas, sendo o método SPIKES um dos mais conhecidos e é sobre este método que nós vamos conversar a seguir.
SETTING UP : Preparando-se para o encontro
Revisão da história clínica do paciente. Acesse as percepções que a equipe tem do caso e estabeleça quais os objetivos da conversa. Converse com a equipe responsável.
Tente entender o contexto familiar do paciente.
Crie um ambiente com privacidade. Caso não seja possível que a conversa ocorra em uma sala reservada, procure o lugar mais calmo e tranquilo possível de acordo com a estrutura que possuir.
Evite distração, desligando os celulares sempre que possível.
Tenha a disposição os materiais necessários (Ex: lenços, água, exames).
Apresente-se caso o paciente não o conheça.
Pergunte ao paciente se ele deseja envolver outras pessoas na comunicação.
Durante o processo:
Mantenha contato visual.
Contato físico (pequeno toque) pode ser permitido, desde que se respeite o limite interpessoal de cada paciente e faça sentido no contexto da comunicação.
Sente-se próximo ao paciente.
Fale de forma calma, clara e ordenada.
Evite demonstrações de ansiedade.
Permita que o paciente fale e mantenha sempre uma escuta ativa.
EVITE: interrupções ou ir sem planejamento!
PERCEPTION: acessando as percepções do paciente
Antes de discutir os achados médicos, use perguntas abertas para descobrir como o paciente compreende de sua situação, suas expectativas e esperanças.
Demonstre atenção e interesse.
“O que o senhor entendeu da situação?”
“Quais as suas preocupações?”
“O que já lhe foi dito acerca de sua doença?”
“O que o sr. acha da sua doença?”
“Você entendeu por que fizemos esse teste (ou usamos essas drogas)?”
ATENÇÃO: Nunca assuma que o paciente já sabe de tudo!
INVITATION: Convidando para o diálogo / Obtenção do convite do paciente.
Convide o paciente a conversar sobre as más notícias.
Respeite os limites do paciente, oferecendo apenas o que ele quer saber e da forma que ele desejar. Nem todos querem saber sobre o diagnóstico, prognóstico e detalhes sobre sua doença.
Atenção a linguagem não verbal.
Caso existe negação demonstre estar aberto a conversas futuras.
“Como o sr. gostaria de lidar com as notícias mais difíceis?”
“O sr. está pronto para isto?”
“Se preferir posso falar com um familiar ou amigo (se o paciente não quiser ouvir os detalhes naquele momento ou se não quiser ser informado)”
KNOWLEDGE: Transmitindo a informação
Dar a má notícia: Frase de alerta / Evitar rodeios / Evitar termos médicos (linguagem sempre acessível).
Lembre-se de que a capacidade de compreensão do paciente pode ser afetada pelo seu estado emocional.
Respeite as pausas.
Dar apenas o que o paciente aguenta receber.
Forneça as informações em pequenas doses e verifique periodicamente a compreensão do paciente.
Reforce o não abandono.
Vi os resultados dos exames e, infelizmente, as notícias não são boas. [PAUSA] Notamos que o seu câncer se espalhou para o fígado.
EVITE: termos médicos!
EMOTIONS / EMPATY: Expressando emoções / Empatia
Observe as reações do paciente e tente compreender suas emoções.
Choque, horror, raiva, aceitação, descrença, recriminação e negação são reações possíveis.
Respeite o tempo do paciente.
Ofereça esperanças realísticas.
Estratégias para apoio: toque, presença, escuta ativa, disponibilidade…
Mostre o seu apoio e valide as emoções, para que o paciente saiba que esses sentimentos são legítimos.
“Isto deve ser muito difícil para o Sr.”
“Sinto muito por te dizer isto.”
“Também gostaríamos que as coisas fossem diferentes.”
“Podemos continuar conversando sobre possíveis passos a seguir?”
NUNCA: destrua a esperança!
SUMMARY / STRATEGY: Resumindo e organizando estratégias
Checar a compreensão / Responder a dúvidas.
Antes de discutir um plano de tratamento, pergunte ao paciente se ele está pronto para tal discussão.
Explique o tratamento / Encoraje-o a participar das decisões.
Não tenha medo de permitir que o paciente entenda o seu diagnóstico, os prós e contras dos tratamentos e sobre as possibilidades de insucesso.
Compreenda quais objetivos específicos são importantes para ele (como o controle dos sintomas).
Defina os próximos passos e reforce a continuidade dos cuidados.
“Me diga, com suas palavras, o que o Sr. entendeu?”
“Nos veremos após os próximos exames.”
A ferramenta SPIKES busca facilitar o processo de comunicação de forma que os profissionais de saúde não esqueçam do que realmente é importante. Independente da estratégia utilizada para a comunicação, sempre devemos nos lembrar de tratar o paciente e seu familiares de forma humana e empática. Por fim, sempre permita que o paciente fale, a escuta ativa é fundamental.
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A família que que “seja feito tuto”. Como discutir preferências de cuidados nestes casos?
Referências
Craxì L, Di Marco V. Breaking bad news: How to cope. Dig Liver Dis. 2018;50(8):857-859. doi:10.1016/j.dld.2018.06.001
Baile WF, Buckman R, Lenzi R, Glober G, Beale EA, Kudelka AP. SPIKES-A six-step protocol for delivering bad news: application to the patient with cancer. Oncologist. 2000;5(4):302-311. doi:10.1634/theoncologist.5-4-302
Texto escrito por Daniere Yurie Vieira Tomotani, médica intensivista pela UNIFESP, mestrado em Tecnologias e Atenção à Saúde pela UNIFESP, pós-graduação em neurointensivismo e em Cuidados Paliativos pelo Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa.