Alta da UTI. E agora? PICS: Síndrome pós UTI

Esse texto foi escrito por Raysa Cristina Schmidt, médica intensivista, formada pela UNIFESP, diarista e plantonista pelo grupo PacienteGraveUTI, plantonista da UTI de anestesiologia do Hospital São Paulo e preceptora acadêmica do programa de Medicina Intensiva pela UNIFESP

A assistência à saúde de pacientes graves melhorou muito nos últimos anos, levando a um número cada vez maior de sobreviventes após tratamento em unidades de terapia intensiva. No entanto, muitos desses sobreviventes desenvolvem sequelas físicas e cognitivas que perduram por longo período após a alta da UTI. Sendo assim, tem-se estudado cada vez mais sobre PICS (Post-intensive care syndrome ou síndrome pós-cuidado intensivo).

Define-se PICS como o conjunto de danos novos ou piora de condições prévias, tanto no aspecto físico quanto cognitivo e psicológico que, se estabelecem ou progridem após o curso de alguma doença crítica. O prejuízo à funcionalidade do paciente pode perdurar por alguns meses ou até mesmo anos. Os sintomas mais comuns são: fraqueza, perda de mobilidade, fadiga, humor ansioso ou depressivo, disfunção sexual, distúrbios do sono, alterações de memória, pensamento lentificado e dificuldade de concentração.

A prevalência da PICS permanece incerta. Alterações cognitivas estão presentes em 25 a 75% dos sobreviventes e os fatores de risco são: a ocorrência e a duração de delirium na UTI, disfunções agudas do sistema nervoso central (como por exemplo acidentes vasculares cerebrais isquêmico ou hemorrágico), hipoxemia, hipotensão, alterações frequentes de glicemia, insuficiência respiratória, necessidade de ventilação mecânica por tempo prolongado, sepse, necessidade de terapia de substituição renal e alterações cognitivas prévias. 

Estudos mostram que alterações psicológicas ocorrem em até 62% dos pacientes, na maioria das vezes manifestando-se com depressão, ansiedade e síndrome de estresse pós-traumático. Além dos Slot Gacor fatores de risco citados anteriormente, incluem-se: sexo feminino, baixa escolaridade, condições psiquiátricas preexistentes e a necessidade de sedo-analgesia.

Sobre as alterações somáticas, a mais frequente é a fraqueza muscular, ocorrendo em mais de 25% dos sobreviventes, sendo os principais fatores de risco: ventilação mecânica prolongada (> 7 dias), sepse, falência de múltiplos órgãos e uso prolongado de sedação profunda.

Os familiares podem ser igualmente afetados por alterações psicológicas durante e após a estadia do paciente na UTI. O conjunto de sintomas que ocorrem nos familiares denomina-se PICS-F e apresenta-se como depressão, ansiedade e estresse durante o tratamento e após a alta ou o óbito do paciente.

Os principais fatores de risco para desenvolvimento de PICS-F são: falta de comunicação com as equipes assistenciais, baixo grau de escolaridade e o desfecho de óbito do paciente.

Prevenção e Manejo

Muito embora seja pouco factível, todos os pacientes admitidos em UTI devem passar por avaliação psicológica, incluindo: histórico psicológico, avaliação da capacidade de adaptação ao estresse, uso prévio de medicações, condição clínica e mental atual e condições de suporte familiar.

O tratamento inclui: eliminação ou redução dos fatores predisponentes, administração apropriada de sedativos, redução de fatores de estresse e melhorar a comunicação com paciente e familiares.

Dessa forma foi criado o mnemônico Situs Slot Gacor para prevenção de PICS

A – Awakening: uso mínimo de sedação, uso adequado de analgésicos, despertar diário

B – Breathing: teste de respiração espontânea

C – Coordination of care and Communication: colaboração no cuidado entre todas as equipes envolvidas

D – Delirium assessment: diagnóstico e manejo do delirium

E – Early deambulation/mobility: deambulação precoce na UTI

F – Family involvement, follow-up referrals: envolvimento familiar e encaminhamentos de seguimento e reabilitação

G – Good communication: melhorar comunicação de transferência de cuidados

H – Handout materials: materiais e apostilas para educação sobre PICS

Outras estratégias de prevenção são: evitar hipoxemia, evitar variações de glicemia, manutenção de diários da UTI (usados para que pacientes, familiares e cuidadores registrem os sentimentos sobre a evolução e cuidado), acompanhamento dos pacientes sobreviventes e familiares em clínicas de reabilitação, manter um status nutricional adequado e garantir a boa qualidade de sono dos pacientes.

Todos os sinais e sintomas que compõem a PICS devem ter uma abordagem de prevenção, diagnóstico e seguimento multiprofissional. O reconhecimento precoce, prevenção dos fatores de risco e tratamento da PICS tornam-se cada vez mais importantes para que pacientes e familiares não sejam apenas sobreviventes da UTI, mas indivíduos que possam reconquistar a independência e qualidade de vida.

Referências:

  1. Rawal G, Yadav S, Kumar R. Post-intensive Care Syndrome: an Overview. J Transl Int Med. 2017 Jun 30;5(2):90-92.
  2. Yanagi N, Kamiya K, Hamazaki N, Matsuzawa R, Nozaki K, Ichikawa T, Valley TS, Nakamura T, Yamashita M, Maekawa E, Koike T, Yamaoka-Tojo M, Arai M, Matsunaga A, Ako J. Post-intensive care syndrome as a predictor of mortality in patients with critical illness: A cohort study. PLoS One. 2021 Mar 10;16(3):e0244564.
  3. Inoue S, Hatakeyama J, Kondo Y, Hifumi T, Sakuramoto H, Kawasaki T, Taito S, Nakamura K, Unoki T, Kawai Y, Kenmotsu Y, Saito M, Yamakawa K, Nishida O. Post-intensive care syndrome: its pathophysiology, prevention, and future directions. Acute Med Surg. 2019 Apr 25;6(3):233-246.

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